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MaryM Blog

"Segue teu destino, rega tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias... " - Fernando Pessoa

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O fim trágico de um amor

04.12.25, Mary M

A noite de 4 de dezembro de 1980 ficará, para sempre, marcada na memória. O "atentado de Camarate" não roubou a Portugal apenas um líder político carismático; roubou-nos um dos exemplos mais audazes de amor e liberdade que a nossa sociedade, ainda conservadora, alguma vez testemunhou.​ Quando pensamos em Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis, é impossível dissociar a política da paixão. Eles morreram como viveram nos últimos anos das suas vidas: juntos, desafiando o status quo. Snu, não era uma mulher comum, dinamarquesa, fundadora da editora Dom Quixote, intelectual e independente, Snu trazia consigo uma lufada de ar fresco para um Portugal cinzento. ​A sua coragem não residia apenas na publicação de livros que desafiavam o regime, mas na forma como decidiu viver a sua vida pessoal. Ao assumir publicamente o seu amor por Sá Carneiro, Snu enfrentou o julgamento feroz de uma elite lisboeta. Ela recusou o papel de amante escondida,  com a sua elegância natural e postura firme, impôs-se como a companheira legítima, provando que a dignidade não depende de um papel assinado, mas da verdade dos sentimentos. Francisco Sá Carneiro era conhecido pela sua intransigência política e pelos seus ideais de liberdade e democracia, mas a sua maior batalha pessoal foi, talvez, a luta pelo direito à felicidade. 

​Num país onde o divórcio era tabu e a figura do político devia seguir moldes tradicionais e católicos, Sá Carneiro teve a ousadia de colocar o amor acima da conveniência eleitoral. Ele nunca escondeu Snu, pelo contrário, orgulhava-se dela. A sua coragem política, que visava modernizar Portugal, espelhava-se na sua vida privada, ele queria um país onde as pessoas pudessem ser livres, autênticas e felizes.

Juntos, Francisco e Snu formaram um casal muito antes do termo ser comum. A sua relação foi um ato político por si só. Eles desafiaram a hipocrisia social e mostraram que o amor, quando é verdadeiro, exige coragem. Camarate ceifou essas vidas abruptamente, deixando um rasto de mistério e dor que dura até hoje. No entanto, o legado que deixaram vai muito além das reformas políticas, eles deixaram-nos a imagem de um amor que não pediu licença para existir.

​Recordar Camarate é, também, recordar a mulher de azul e o homem que queria mudar o mundo, e que, contra todos os ventos e marés, escolheram viver a sua verdade até ao último segundo.

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